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terça-feira, 17 de novembro de 2009

"Cão como nós", de Manuel Alegre - obra escolhida para o Ensino Básico

São cento e algumas páginas que nos mostram, à sua maneira, a forma de um homem ter saudades do seu cão. A este, um epagneul-breton, foi-lhe dado o nome de Kurika, nome de leão, e não era então um cão como os outros, era-o antes como nós.

Era também um membro da família, um irmão, talvez, para os filhos do narrador, este era talvez o único que o via como cão e não como um deles, apesar de o saber diferente tentava sempre mostrar-se dono do seu cão como tal o era. Página sim, página não temos os relatos alternados de um dono de um cão que mesmo depois de este morrer o continua a sentir como se se tivesse tornado apenas invisível mas continuasse a existir. Ouve-o. Sente-o. Quase o vê. Talvez apenas imagine, mas seja como for o que interessa é que, imaginado ou não, Kurika estava e faria, onde estava e o que sempre fazia.
Página sim, Kurika quer passear no jardim (mas não se passeia um cão invisível). Página não, o narrador e os filhos observam Kurika numa ida a praia e interrogam-se acerca do espírito do animal.

São cento e algumas páginas com uma narrativa simples, quase poética (ou não quase, poética mesmo), linguagem viva e sentido de realidade, não da nossa de facto, mas da realidade da memória deste cão, que se não o era como os outros era-o então certamente como nós.

concurso de leitura - 2009/10 - 1.ª Fase - dia 17 de Dezembro

CÃO COMO NÓS – MANUEL ALEGRE
(leitura indicada por João Videira Santos)


“Sei muito bem que as pessoas saem dos retratos, sei isso desde pequeno, mas tu não, estás proibido de voltar a fazer o que fizeste esta noite, não posso entrar na sala e ver outra vez a tua moldura vazia.”
Cão como nós, novela do escritor português Manuel Alegre, publicada pela Editora Dom Quixote, é um relato comovente da relação do homem com o cão Kurika. O vínculo construído sem palavras e com forte simbologia. A personalidade do cão forma-se com os liames afectivos, a sua inserção dentro da família e os papéis que assume.O narrador, dono do cão, intercala memórias muito vívidas com o vazio deixado com a ausência do animal. Durante muito tempo, acreditou que o cão era cão e deveria ser convencido disto, mas com a sua morte, compreendeu que o cão era um personagem definitivo no enredo da família. Era o olhar atento, a alegria, a aproximação silenciosa, o corpo entre os pés, as manifestações durante as apresentações musicais, a empatia, a solidariedade, a presença...
Era um cão que acreditava não ser cão e se comportava como filho e irmão. Para o cão, não havia porta fechada ou ordens que não pudessem ser descumpridas, mas existia a fidelidade e o incondicional amor.
As percepções do cão são reveladas na narrativa. Uma confissão amorosa que imortaliza o dia-a-dia do cão, que, não sendo humano, era cão como nós.“Sinto calor aos pés, aposto que estás aí enroscado, vamos de carro a caminho de Moura e um poema começou a esboçar-se dentro de mim, pego num pedaço de papel, é uma conta de cartuchos, não importa, serve, começo a escrever, quando ficamos sós eu leio-te, é para ti.”